[Atrás da porta]
Não foi há muito tempo que as primeiras coisas de que me lembro aconteceram. Tudo parece ter sido ontem mas acabaram por passar, sei lá, talvez uns quarenta anos. Não mais. Ou talvez mais, um ano ou dois, mas ,que é isso no cômputo geral?
Recordo-me da casa onde vivi logo depois de nascer e onde me mantive na expectativa de que o mundo era todo lá fora. Trata-se de uma casa de sombras e cheiros, onde tudo podia acontecer. Havia, por exemplo, a visita do diabo que vinha todas as noites postar-se à coca entre a fresta da porta do quarto. Ele lá, sossegadinho, no corredor a espiar-me, quieto e firme durante horas. Havia qualquer coisa de acusador nos seus olhos. Em vão me diziam que não estava lá nada. Qual quê! Estava e que culpa tinha eu se eles não o viam? Enquanto ali vivi - até aos sete anos, o que nessa altura era uma vida e meia ou mais - todas as noites, desde a primeira - quando esqueci a vassoura das cavalgadas escostada à porta - ele ali se postava. Alturas houve em que o não vi como ameaça. Habituara-me à sua presença, era quase um anjo protector, negro e cornudo. Onde foste buscar essa ideia do diabo?, perguntavam-me.
No livro do soldadinho de chumbo tinha visto um, logo sabia reconhecer a sua imagem. Era ele... era.Tinha a certeza. (ter-me-á vindo essa visão de ter ouvido alguém falar n'"o diabo atrás da porta?". Não sei. Este medo maior que eu foi um dos primeiros que tive. E que retive até hoje. Não gosto de dormir no escuro, não vá acordar com um olhar espetado em mim, não vá o diabo tecê-las.


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