O vestido dos passarinhos

Apetece-me tentar desenhá-lo, mostrar como tinha um decote bonito e fresco e como rematava com dois lacinhos finos nos ombros. A saia, como quase todas as saias das meninas da época, tinha uma roda que facilitava as corridas pouco femininas que me deixavam marcas nos joelhos. Quero procurar palavras para o cheiro que tinha dentro do guarda-fato, o meu chamava-se guarda-vestidos, quero lembrar-me de como o poupava e me sentia leve com ele, mas baralho tudo na cabeça, as palavras desaparecem num ápice e ficam só as imagens que não consigo contar. Era uma vestido de fundo branco, de um algodão bom, daqueles antigos que encorpovam sem perder a maciez e que tinham um certo brilho aristocrático. Os passarinhos eram pequenos, esverdeados uns, mais amarelados outros e ainda, uma imensa minoria, de pequenas aves encarnadas e castanhas. Voavam assim, pequenas e leves, pelo branco do vestido, juntando-se em bandos perto dos franzidos e espalhando-se pelos os céus lá para os lados dos meus ombros. Os outros vestidos não tinham nome - e lembro-me de cinco, seis ou até talvez dez vestidinhos amarelos, com peitilho, com paletas a imitar bolsos, de linha direita, rodados, macios ou que "picavam" - mas aquele era o meu vestido preferido: o vestido dos passarinhos. Não conseguia imaginar que não fosse meu para sempre, que algum dia o meu corpo o expulsasse por apertado, curto ou ambas circunstâncias. Não me queixava se as cavas franziam a pele debaixo dos braços, deixando ali marcados com violência os apertos do algodão, tentava respirar de mansinho para que o vestido entrasse à justa por sobre a cabeça e se arrumasse ao milímetro no meu peito rechonchudo. Tentei tudo mas um dia o vestido foi posto de parte. "Deixa, já não te serve. A mãe depois compra-te outro". Entre o desgosto e a desilusão pelo abandono a que nos votámos (o vestido e eu, nenhum colaborava) agarrei-me à ideia mais pacífica. Reparei que os passarinhos voavam agora mais ténues pelo meu corpo, o verde era mais desmaiado, o vermelho perdera o sangue ficando-se por um rosado triste... Talvez fosse bom dar-lhe descanso, pendurá-lo no escuro guarda-vestidos e esperar que o descanso lhe fizesse bem ao cansaço das cores. Mas naquele tempo o lixo não era seleccionado pela simples razão de que nada (ou muito pouco) era considerado lixo. Os restos da comida iam para as galinhas, as garrafas de vidro eram lavadas e aproveitadas para outros usos, como ir comprar vinho ao litro, azeite, petróleo ou mesmo para ir à farmácia comprar álcool puro ou desnaturado. As camisas tinham os colarinhos virados e revirados, perdiam-se tardes a desmanchar um casaco comprido de "uma lã tão boa" que se aproveitava para fazer do outro lado, com os trapos já sem proveito faziam-se esfregões ou compunham-se tiras compridas que se enovelavam para irem para a mulher do tear que deles faziam mantas de trapo com bonitos feitios. Nesse tempos, não havia recolha selectiva de lixo, nesses tempos reutilizáva-se tudo... O vestido dos passarinhos ficou um ano ainda no fundo do guarda-vestido, olhava para ele, passava as minhas mãos pelo tecido com uma ternura pelo seu tamanho encolhido numa nostalgia de passados que só nós tínhamos vivido. O vestido dos passarinhos e eu éramos uma dupla que testemunhara uma boa parte da minha infância. E isso conferia-lhe uma importância que o poupava ao destino de toda a minha roupa que o meu corpo em crescimento expulsava. Os pobrezinhos eram na altura uma instituição que nos facilitava o difícil caminho do céu. Existiam para que nós pudessemos fazer bem. Sem eles para nos lembrar como poderíamos saber se eramos boas pessoas? Os pobrezinho levavam sempre a roupa que já não servia, algum resto de comida, um pouco de mercearias e um "tenha paciência" final. Os pobrezinhos eram os nossos maiores amigos porque agradeciam tudo com uma humildade que nos remetia para um lugar que as nossas acções nunca podiam comprar: nada mais nada menos do que a direita do Senhor. Ficávamos ali sentados, naquela cadeira de luxo, qual camarote de ópera, depois de praticarmos o bem aos pobrezinhos e de eles nos mostrarem, tão reverentes ,até que pono tínhamos sido bons. Um dia, o meu vestido dos passarinhos levou o mesmo destino das coisas que nos conduziam ao céu. Em vão gritei "esse não!". O meu egoísmo foi-me logo apontado e mesmo depois de esboçar um tímido "os outros sim...mas esse não, mãe, só esse!" o vestido voou do cabide de madeira trabalhada, pintado com uma cabeça de um porco cor de rosa que se perfilhava ao lado de outros com um cabeça de galo, de gato, de palhaço. Não houve aquilo a que na altura se poderia chamar violência. Não houve um despachado "porque sim" ou um "vai, e tu não tens quereres". Houve uma conversa de pobrezinhos, de egoísmo, de gente que passa frio (mas o vestido é de Verão, mãe!) e fome em comparação comigo que tudo tinha. Pela minha cabeça passou um pensamento: Tudo, não! Vou ficar sem o vestido dos passarinhos. E se em troca desse um dos que me servem?, tentei. "Isso é não ser orieentado. Devemos dar o que já não nos serve e ainda serve aos outros. " Passaram 40 anos, quarenta, quatro décadas, e ainda vejo o meu vestido dos passarinhos a voar do meu guarda-vestidos perante a minha incapacidade de dizer Não.

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