A noiva

Não sei se eram parecidas com estas as camélias brancas que a mãe levava no dia frio do seu casamento. Era uma ramo de pé curto, próprio para viagens rápidas e, logo após a cerimónia no convento de Cristo, foi entregue a Nossa Senhora noutra igreja da cidade. A entrega do ramo, a entrega da noiva, a entrega da vida daí para a frente a Nossa Senhora funcionava como uma espécie de consagração. Uma desresponsabilização e uma aceitação da óbvia boa vontade divina.
Digamos que o casamento não foi o mais banal. Digamos que havia no rosto de alguns convidados alguma ponta de curiosidade. Digamos ainda que havia tristeza noutros olhos. A minha irmã tinha 13 anos e ia levar o pai ao altar. Não era uma coisa que acontecesse a todas as crianças. Não era o que tinha acontecido com as meninas que conhecia. Levou o pai ao altar e ganhou uma madrasta, nome com que as histórias mascaram as rainhas das malvadas. O seu olhar assustado não empalideceu a cerimónia, mas deixou um lastro de baba húmida nas paredes ainda impolutas daquele casamento acabadinho de realizar. Alguns curiosos olhavam a elegência da noiva, mulher já nos 30, e pensavam porque teria ela esperado tanto para acabar por casar com um homem viúvo. O viúvo tentava apagar da cabeça, ao menos por esse dia, memórias antigas e entregar-se virgem de sofrimentos e mágoas à sua nova mulher. As camélias, agarradinhas mesmo junto do corpo com muito cuidado, não caia a flor pesada e só fique a ramagem envernizada na mão, eram brancas, branquissímas. Apesar de ser Inverno não foram fáceis de encontrar assim tão brancas. Houve que palmilhar, saber quem tinha, rezar para que as flores abrissem na altura certa. Era quase Natal, 18 de Dezembro, estava frio mas não chovia. Alguém olhou para o céu, temendo a nuvem escura e baixa. "Nah! não tem cara disso. Hoje não chove". Se tivesse chovido não teria vindo mal ao mundo. Afinal, casamento molhado é casamento abençoado. E assim, como foi?

