ninho da cotovia

Cotovia, cotovia enquanto se capa não se assobia

Friday, March 31, 2006

A noiva

Não sei se eram parecidas com estas as camélias brancas que a mãe levava no dia frio do seu casamento. Era uma ramo de pé curto, próprio para viagens rápidas e, logo após a cerimónia no convento de Cristo, foi entregue a Nossa Senhora noutra igreja da cidade. A entrega do ramo, a entrega da noiva, a entrega da vida daí para a frente a Nossa Senhora funcionava como uma espécie de consagração. Uma desresponsabilização e uma aceitação da óbvia boa vontade divina.
Digamos que o casamento não foi o mais banal. Digamos que havia no rosto de alguns convidados alguma ponta de curiosidade. Digamos ainda que havia tristeza noutros olhos. A minha irmã tinha 13 anos e ia levar o pai ao altar. Não era uma coisa que acontecesse a todas as crianças. Não era o que tinha acontecido com as meninas que conhecia. Levou o pai ao altar e ganhou uma madrasta, nome com que as histórias mascaram as rainhas das malvadas. O seu olhar assustado não empalideceu a cerimónia, mas deixou um lastro de baba húmida nas paredes ainda impolutas daquele casamento acabadinho de realizar. Alguns curiosos olhavam a elegência da noiva, mulher já nos 30, e pensavam porque teria ela esperado tanto para acabar por casar com um homem viúvo. O viúvo tentava apagar da cabeça, ao menos por esse dia, memórias antigas e entregar-se virgem de sofrimentos e mágoas à sua nova mulher. As camélias, agarradinhas mesmo junto do corpo com muito cuidado, não caia a flor pesada e só fique a ramagem envernizada na mão, eram brancas, branquissímas. Apesar de ser Inverno não foram fáceis de encontrar assim tão brancas. Houve que palmilhar, saber quem tinha, rezar para que as flores abrissem na altura certa. Era quase Natal, 18 de Dezembro, estava frio mas não chovia. Alguém olhou para o céu, temendo a nuvem escura e baixa. "Nah! não tem cara disso. Hoje não chove". Se tivesse chovido não teria vindo mal ao mundo. Afinal, casamento molhado é casamento abençoado. E assim, como foi?

Thursday, March 30, 2006

[Atrás da porta]

Não foi há muito tempo que as primeiras coisas de que me lembro aconteceram. Tudo parece ter sido ontem mas acabaram por passar, sei lá, talvez uns quarenta anos. Não mais. Ou talvez mais, um ano ou dois, mas ,que é isso no cômputo geral?
Recordo-me da casa onde vivi logo depois de nascer e onde me mantive na expectativa de que o mundo era todo lá fora. Trata-se de uma casa de sombras e cheiros, onde tudo podia acontecer. Havia, por exemplo, a visita do diabo que vinha todas as noites postar-se à coca entre a fresta da porta do quarto. Ele lá, sossegadinho, no corredor a espiar-me, quieto e firme durante horas. Havia qualquer coisa de acusador nos seus olhos. Em vão me diziam que não estava lá nada. Qual quê! Estava e que culpa tinha eu se eles não o viam? Enquanto ali vivi - até aos sete anos, o que nessa altura era uma vida e meia ou mais - todas as noites, desde a primeira - quando esqueci a vassoura das cavalgadas escostada à porta - ele ali se postava. Alturas houve em que o não vi como ameaça. Habituara-me à sua presença, era quase um anjo protector, negro e cornudo. Onde foste buscar essa ideia do diabo?, perguntavam-me.
No livro do soldadinho de chumbo tinha visto um, logo sabia reconhecer a sua imagem. Era ele... era.Tinha a certeza. (ter-me-á vindo essa visão de ter ouvido alguém falar n'"o diabo atrás da porta?". Não sei. Este medo maior que eu foi um dos primeiros que tive. E que retive até hoje. Não gosto de dormir no escuro, não vá acordar com um olhar espetado em mim, não vá o diabo tecê-las.