ninho da cotovia

Cotovia, cotovia enquanto se capa não se assobia

Sunday, December 31, 2006

O frio dos pinhais


Era durante as férias do Natal que tudo parecia possível. Havia o frio, aquele frio cortante que trazia consigo as constipações e as ameaças das frieiras que, por serem tão plebeias, atacavam só os dedos das criadas.
Havia ainda a feitura do presépio que implicava um mergulho na humidade dos pinhais. O cheiro a verde impregnava-se no nariz, nas mãos roxas e na roupa. Ponha-se a mão devaraginho por baixo de tapete fofo e ia-se levantando, descolando com cuidado do solo aquela camada mais ou menos espessa, desalojando os bichos rasteiros que fugiam, estremonhados, trepando pelos nosso braços. Sacudiamos as mãos dos bichos, dos agulhos dos pinheiros que se espetavam nas mangas de lã e afofavamos o tapete numa caixa de cartão. Havia tanto musgo que bastava encontrar um "jazida" para aí nos fornecermos de verde para mais do que um presépio, mas gostavamos de passar toda a manhã ou toda a tarde na tarefa. Subíamos e descíamos por carreiros de mato, pisávamos caganitas de cabra e brincávamos com os vasos da resina. Regressávamos de cara vermelha, mãos peganhentas, ranho a pender no nariz, tosse e a roupa húmida dos fetos altos.
Os adultos, tementes do frio e das suas consequências, não conseguiam comprimir o discurso do espanto: Mas onde andaram vocês para virem nesse estado? Olha para esta roupa toda molhada. Como fizeram isto? Mas é preciso tanto tempo para se apanhar uma mão cheia de musgo? A tantas dúvidas nós respondíamos com a única certeza: o silêncio. Deixávamos que nos assoassem o moco do nariz, que nos esfregassem com álcool as mãos esbranquiçadas da resina, os arranhões do mato, as lambidelas dos cães que vagueavam sem destino pelos caminhos ermos, tudo numa mudez onírica. Estavamos no país dos nossos sonhos, no território vasto, rico de mistérios e sombras dos pinhais da nossa infância. Só nós poderíamos saber o que nos esperava na névoa da manhã quando no dia seguinte, com uma desculpa qualquer, voltássemos para lá à procura das bagas ou dos cogumelos vermelhos de grosso pé terroso.
Era uma território tão vasto que toda África cabia nele. As aventuras do Capelo e Ivens, que sabíamos da escola, só eram maiores porque ali não havia leões nem negros, duas realidades tão exóticas que nem as queríamos nas nossas aventuras. Chamavamos o medo uns dos outros com a ajuda da imaginação e do desejo: Parece-me que vi um lobo. Lobo não, era uma raposa, eu também vi. E ali, que barulho foi aquele? Uma cobra, devia ser uma cobra.
Por entre os pinheiros espalhava-se um nevoeiro de frio e, fora isso, uma ou duas cabras ou alguma mulher curvada à cata de lenha, não havia ali mais nada, diria quem ali fosse. Mas para nós, nada era o que parecia aos outros e mesmo a podoa com que a mulher rachava os ramos velhos era uma arma para se defender das feras que os nosso olhos viam.